Uma Breve História da Desumanidade


 

Uma Breve História da Desumanidade

Todo animal, a grosso modo, guerreia. Nem sempre é um confronto direto, mas quando os recursos para a sobrevivência começam a se esgotar, as disputas ficam mais acirradas. Os vencedores acabam sendo os mais fortes, ou os mais velozes, ou os mais espertos, ou os mais enganadores, e os que não se enquadram em um esquema eficaz de sobrevivência acabam sucumbindo.

Os gorilas, por exemplo, nossos parentes próximos, sobrevivem pela força bruta. Mesmo sendo vegetarianos eles andam armados com dentes ameaçadores de feras carnívoras e músculos poderosos. Eles só amam a própria família. Os machos mais violentos e que têm força para defender seus territórios, conseguir alimentos e proteger as famílias, sobrevivem por mais tempo. E eles não toleram outros machos, nem os próprios filhos machos quando estes ficam adultos e, com ódio, os expulsam. Vivem em famílias pequenas num egoísmo total. Os filhos expulsos, quando já fortes como os pais, vagueiam pela floresta à espreita de algum território para invadirem e se estabilizarem. Quando um deles encontra uma família vulnerável, invade o território, mata o ex-líder poderoso e, como nem padrasto ele quer ser, mata também os filhotes. As fêmeas, com metade da força, nem chances têm de defender seus filhotes contra o infanticida brutamontes e terão que se sujeitar à violência do novo macho e gerar os novos filhos dele, que herdarão, geneticamente, a mesma brutalidade e sobreviverão se conseguirem repetir esse ciclo. Afinal, isso é coisa da natureza animal.

Já o Homo sapiens evoluiu diferentemente. Fraco e desarmado, sem as unhas dos leões ou os dentes dos gorilas, ele herdou a tolerância. Sem os dentes ameaçadores ele desenvolveu o sorriso amistoso. Sem o egoísmo exagerado, ele aprendeu a cooperar e a conviver com seus similares. Sem a competitividade e o ódio, ele desenvolveu o amor para além da própria família e se tornaram irmãos. Isso permitiu a ele formar grandes comunidades, propiciou sinergia nas caças e na proteção das famílias, e suas virtudes, acima dos puros instintos animais, o levou à excelência na capacidade de sobrevivência no reino animal. Com características virtuosas, como bondade, empatia, compaixão, solidariedade, fraternidade etc., que o diferenciam dos outros animais, sua população não parou mais de crescer, espalhando, como herança genética, todas as virtudes que o levaram a esse sucesso. À medida que os recursos se tornavam insuficientes para alimentar a população crescente onde moravam, grupos se retiravam para buscar outras áreas. Preferiam sair amigavelmente do que lutar contra os seus iguais. E assim, o ser humano foi se multiplicando e se espalhando pelo planeta, ocupando continente após continente. Antes da formação dos primeiros assentamentos agrícolas, o ser humano já tinha ocupado o planeta inteiro. Isso seria impossível para qualquer outro animal que, sendo egoísta e competitivo como os leões e os gorilas, marcariam seu território e fariam combates de morte para não se afastarem de suas fontes de alimento.

Não tem como afirmar que o ser humano sempre foi guerreiro, mas a população crescente e a demanda por territórios, foi suficiente para definhar as populações de outros animais onde chegavam, inclusive as dos nossos primos Neandertais, Denisovanos e outras espécies humanas que coexistiram durante um certo tempo. Talvez tenham faltado a esses nossos primos, aquelas virtudes que propiciavam a formação de grandes grupos cooperativos. Essas ocupações continuaram acontecendo durante milênios e, inconscientemente, acabavam expulsando animais e destruindo florestas, mesmo sem guerras.

Mas com os primeiros assentamentos agrícolas, há cerca de 120 séculos (12 mil anos), começaram as demarcações de territórios e, consequentemente, a necessidade de defendê-los. Começa aí, após cerca de 1000 séculos de existência virtuosa, um certo retorno à animalidade. Não havia mais terras vazias para onde ir e os encontros de povos nômades com os povos já estabelecidos era inevitável. Em princípio, os forasteiros eram recebidos amistosamente, como foi registrado na Carta de Caminha, quando os índios brasileiros receberam a primeira comitiva portuguesa. Mas chegou um tempo em que o desespero que guiava alguns retirantes os obrigou a guerrear, como escrito na Bíblia quando o “Deus” se transformou em o “Senhor dos Exércitos”, pois não havia mais terras desocupadas e a “Terra Prometida” não era encontrada.

Há pelo menos 40 séculos, já havia várias civilizações no planeta, com cidades muito populosas, crescendo e demandando mais espaço. E invadindo, guerreando e tomando terras, alguns humanos recaíram na brutalidade primitiva e começaram a eliminar seus semelhantes mais pacíficos, deixando mais descendentes e colocando as guerras e os mais desumanos como os principais protagonistas da nossa História que estava começando a ser escrita: a História da Desumanidade.

Agora, no século 120 da civilização, os seres humanos tentam encontrar uma solução para os conflitos desenvolvidos pela própria desumanização da civilização. Não sabemos se a brutalidade, a intolerância e o ódio, que carregamos agora, são produtos de herança genética ou de influência cultural, mas precisamos parar o crescimento da estupidez de homens instruídos. Precisamos fomentar a prosperidade dos povos em suas próprias terras, em seus próprios países, com mais cooperação e menos competição. Que a excelência que tínhamos alcançado nos primórdios da humanidade não seja mais para o “crescer e multiplicar”, mas para a melhoria da qualidade de vida de todos. Talvez assim nada mais justifique as guerras e a destruição do planeta, e os povos compartilharão mais solidariedade e conhecimento, resgatando as virtudes humanas, deixando exclusivamente para os animais o direito de serem animais.

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A invasão da Rússia à Ucrânia me motivou a escrever este texto, mas vemos desumanidades também em várias atitudes de governos que negam a ciência e divulgam mentiras para proteger o poder econômico, confundindo e prejudicando principalmente as pessoas sem instrução.

Bibliografia:

  • A Bíblia
  • Macaco Pelado – Desmond Morris
  • História do Homem nos Últimos 2 Milhões de Anos – Selecções do Readers’s Digest
  • Etologia: a Conduta  Animal, Um Modelo para o Homem? – Klaus Thews
  • A “Carta de Caminha” - a histórica de  Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal
  • A Origem das Espécies – Charles Darwin
  • Sapiens, uma breve história da humanidade- Yuval Noah Harari

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